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Las esperanzas rotas

Las horas pasan y yo tengo pocas esperanzas, he oído rumores de una mente embotada, que me susurró al oído palabras incomprensibles. Vejo el destino en el vaso vacío sobre la mesa y esparció las cenizas en el cenicero que vuelan por la puerta y nadie se da cuenta de que estoy ahí, las voces están dispersas en todo como un rumor, y por ahí en la calle Lavradio prisa personas, tanto absorbida y hacen estar aquí en la Lapa o en Zaragoza, es igual. Miro el reloj y son diecinueve ya, las horas pasan volando mientras trato de elegir algo en la estantería frente a mí, como si buscara un recuerdo de la vida con opciones tan pocos. Llamo a la camarera, que desfiles de pasión entre las mesas y hacer un juego de ajedrez con almas perdidas en el lugar, le pido otra botella y ella me sonríe, pero una sonrisa falsa y triste, tratando de ocultar algo que se ha visto con el ojo desnudo. Me quedo mirando la silla vacía frente a mí y ya una vez que enciendo el teléfono que también me deja sin respuesta así, una visión a través de la catedral de la ventana, su torre elevan hacia el cielo negro sin estrellas, con nubes que amenazaban también retrata el mismo oscuro, me levanto con la cuenta pagadas, dejando también sobre la mesa las flores marchitas.
Camino por las calles mojadas y con olor a bebida barata y me pierdo en pensamientos, he escucho gritos de cumpleaños por una ventana y las personas que allí están. Camino entre las calles oscuras tropezando en los hombres con sus ojos firmemente plantados en el suelo después de un día de trabajo. Un rayo rompe el cielo y tal vez la lluvia que limpio el piso sucio, lavado de la saliva y las lágrimas secas de guiso de almas perdidas. Y así yo me puedo volver a mis esperanzas y intenté ir de encuentro a mi felicidad qué he perdido.

Joseli Alves

O Amuleto

O amuleto

 Paulo Augusto de Siqueira! Era assim com o nome pomposo que ele se apresentava para as pessoas. Filho de pai Empresário do ramo de Hotelaria, vivera a maior parte do tempo viajando. A infância sempre fora abastada e inquieta. Amigo tinha poucos, contava-se no dedo, três poderia contar, o resto eram apenas “amigos de conveniência” e assim levava a vida. Na faculdade, imposta pelo pai, sempre arrumava um modo de conseguir alguma coisa.  O dinheiro e prestigio lhe abriam as portas, o sucesso com as mulheres davam-se por conta de sua imensa cara de pau e da carteira recheada, comprava a tudo e a todos que podiam. Era um incrédulo, dizia que para ele qualquer dia era dia e que quem fazia o destino eram, uma carteira de dinheiro, um sobrenome e bons políticos. Contavam-se as vezes que entrara em uma igreja, no batizado e em casamentos que por algum motivo ou interesse pudera comparecer. Tinha ao seu lado, sempre o fiel amigo Pedro. Esse supersticioso fazia às vezes de amigo e confidente, era como uma consciência ambulante, repreendia sempre o amigo, nas vezes em que esse profanava alguma das regras das superstições que acreditava.

 - Siqueira, Siqueira! Dizia esse sério.

- Deixe disso Pedro. Se isso fosse verdade, essa tal de pata de coelho, trevo e outras coisas, qualquer um ficava rico, ninguém morria ou ficava doente. Isso é coisa de enganadores. Veja o meu caso, meu coroa sempre foi rico, eu nasci rico, bastou um punhado de espaermatozoides esverdeado é claro. Você sabe disso. – Disse rindo dando uns tapas no amigo. Pedro pegou o celular em cima da mesa e olhou as horas. Olhou para o amigo sério e fixo e balançou a cabeça negativamente. Perdoava o amigo. Afinal sempre fora assim, descrente. Acreditava e pregoava que tudo o que possuía era somente sorte, e que essa andava sempre ao seu lado e a todos que estavam com ele. – Acredita mesmo nisso não é Pedro? – Cara. Não vou negar para você, mas tu devias acreditar em alguma coisa. Não pode ser tão cético assim. – Acredito na minha carteira, isso sim. Disse rindo para o amigo. Enquanto bebia outra garrafa de Ice. – É Siqueira! Não adianta mesmo. Disse também já sorrindo amigo. – Vamos embora que já é tarde! Minha noiva deve estar me xingando há essa hora e como ela sabe que estou contigo, ele deve estar uma fera. Fiquei de passar por lá para acertamos algumas coisas sobre o casamento. Siqueira e Pedro, amigos de infância, origem e destinos completamente diferentes. Conheceram-se no Ensino Médio. O pai de Siqueira era dono do único hotel de Barra do Pirai, na época ainda se erguendo e vivendo da prosperidade da fabrica de Papel. Muitos técnicos que iam para ajudar na construção da fábrica se instalavam ali. Ainda menino ajudava o pai quando saía do colégio e nos finais de semana entre uma pelada e outra encontrou Pedro e ficaram amigos. Compartilharam momentos da adolescência e na época de alistarem-se para o quartel, separaram-se. Pedro, apesar de filho único servira e ficara três anos no exercito e Siqueira, a pedido do pai, sobrara e foi estudar no Rio de janeiro, fazer Administração, para ajudar nos negócios do pai, demorou mais tempo do que devia, e a faculdade que deveria concluir em quatro anos, levou seis, para desespero da Mãe e do Pai. Sozinho numa cidade como o Rio. Via-os nos finais de semana, de inicio todos, depois com o crescimento dos amigos, foram ficando mais escassos. Pensou perder o filho para a vida, quando após a morte trágica de amigos em um acidente de carro na Dutra e após escapar da morte esse retornou para Barra, para alivio do pai. No ano seguinte, perdera a mãe e aceitou o pedido dessa antes de falecer, que era ficar mais próximo do Pai. No ano seguinte chegara Pedro, tinha dado baixa do Exército e procurava emprego. Siqueira arrumou-lhe com um amigo do Pai que trabalhava no ramo de exportações e nunca mais se desgrudavam. Siqueira e Camilo tornaram-se grandes amigos, a cumplicidade entre os dois era tanta que achavam que eram irmãos, onde um estava podia contar no relógio que o outro estaria. Porém Pedro era mais centrado e quieto, ao contrário do outro. E assim, como água e vinho, positivo e negativo, se equilibravam, Pedro tomava conta do amigo, indiretamente. Nessas andanças, Pedro conhecera Pamela, que trabalhava na lav & Leve, onde ele engomava suas roupas, assim como ele era quieta, falava menos ainda e as vezes Siqueira caçoava dela pela sua quietude e do amigo. Sem maldades, afinal, não queria magoar o amigo. Com Pamela, Pedro foi se afastando mais do amigo, esse boêmio, era o inverso dele e ale agora tinha Pamela e não queria magoá-la, já que era avessa a bagunças e sonhava em casar no ano seguinte. O que sempre fora desencorajado pelo amigo. Siqueira sabia o que era isso. Ficara noivo de uma moça, amiga da família, durou um ano e a família da moça apertando para que casassem. Siqueira não era disso, acostumado a noitadas, não durou muito o noivado e para o seu bem e da moça, terminara e agora eram apenas bons amigos. – Certo! Vamos embora, eu te levo. – Nada disso Siqueira! Você bebeu muito e não está em condições de dirigir. Deixe que eu chamo um taxi e vamos juntos. Voce bebeu muito e pode acontecer uma tragédia. – Deixa disso você. Bêbado sempre acha o caminho de casa. – Anda! Pode ir, vá! Vá! A sua Pamela te espera. Eu ainda tenho algumas horas. E logo estarei bom. Ainda tem algumas meninas por aqui e vou ficar mais um pouco. Despediram-se meio a contragosto de Pedro. Não gostava de ver o amigo daquele jeito. Mas sabia quando não devia contrariá-lo. E Siqueira viu Pedro entrar no taxi que fica no ponto em frente ao bar estrategicamente e seguiu para a casa da noiva. Esse pagou o taxi e seguiu na calçada úmida de sereno e tocou a campainha no portão de ferro. Viu quando a luz do quarto que ficava no segundo andar se acendeu. – Devia estar dormindo! Pensou. Não deveria ter vindo. Era tarde, deviam ser perto de uma hora da manha, e Pamela apareceu na porta da sala, com um Hobby sobre o corpo e com a cara de sono. Pedro a beijou e contou-lhe sobre o amigo, e ela fez com que entrasse. Era tarde e pediu que ele ficasse por ali e fosse para casa no dia seguinte. Subiram as escadas de madeira da casa, ela pedindo que ele fizesse pouco barulho, colocando o dedo sobre o lábio carnudo e amarrotado de um sono inacabado. Seus pais estavam dormindo. Esse sorriu e subiu degrau por degrau cautelosamente, no que ainda podia. Tinha bebido algumas e seu equilíbrio estava traindo-o. Não era a primeira vez que viera a casa dela, mas seria a primeira vez que iria dormir no seu quarto. O coração estava batendo forte. Olhou pela janela e pode ver a lua cheia e romântica no céu iluminando a cama. Ela deu-lhe uma camiseta e pediu que se trocasse no banheiro. Abraçou-a e beijou-lhe ardorosamente e pode sentir todo o amor que ela possuía por ele. Deitaram-se na cama e amaram-se sob a lua cheia e brilhante, acomodou sobre seu peito a cabeça pequenina e loura de sua amada. Pousou as mãos sobre seu peito pode sentir o coração batendo forte e acelerado após instantes de amor e sexo, adormeceram sonhando um com o outro e com os planos de um casamento que estava por vir. Pedro acordou sobressaltado no meio da noite, pensou ter escutado um grito. Parou alguns instantes colocando a cabeça de lado, tentando escutar algo, e voltou a dormir. Devia ser o vento ou alguém na rua pensou, olhou para o lado e foi abraçado pela amada que semi-adormecida murmurava o seu nome. Enroscou-se em seu peito e ali ficou até adormecer novamente. Siqueira pagou a conta sua e dos amigos e procurou a chave no bolso da calça. Pediu um copo de água e revirou novamente os bolsos. Olhou no chão e lá estava a chave do carro. Desceu os degraus do bar e beijou sua acompanhante e abraçou-a. Não lembrava seu nome e essa assim como ele estava muito alta. Escutou quando ela disse que a deixasse na Rua quinze, eram a algumas quadras dali. Entraram no carro e seguiram. Siqueira atropelou duas latas de lixo. “Que estavam no meio da rua!” disse a sua acompanhante que riu. Deixou-a no seu destino e preparou para voltar. Pegou o volante e viu um homem a sua frente lhe apontando alguma coisa. Tentou distinguir e não conseguiu ver nada além das luzes fortes dos postes a sua frente e o vulto que se formava. Sentiu que alguém também estava do lado de fora do carro em pé e só percebeu a pancada quando essa veio forte em sua cabeça e as luzes se apagaram completamente com um som de vidros quebrando. – Vamos! Levante-se homem, escutou ao longe. – Sorte que não machucou tanto. Podia ter morrido! – O que aconteceu? Perguntavam-lhe. Tentou levantar-se e sentiu a cabeça doer, ainda tonto da pancada e das bebidas, viu que tinha algumas pessoas a sua volta. Estava na calçada, olhou em volta e não viu o carro. Tentou pronunciar alguma coisa e sentiu a cabeça doer. Colocou a Mao na cabeça e sentiu ela grudenta, como se alguma coisa melada estava saindo dela ou grudada nela. Olhou as mãos e viu que era sangue. Sentiu a cabeça rodar e apagou, dessa vez pesadamente. Acordou no hospital. Com a cabeça doendo muito e deitado num leito e com uma luz forte e branca sobre seus olhos. Olhou em volta e viu Pedro, sentado na cadeira do outro lado do quarto. Esse se levantou e veio ter com o amigo. – Cara, como vai? Ligaram-me quando você deu entrada. O que aconteceu? Perguntou esse – Não sei ao certo, só lembro-me de um homem parado na frente do carro e quando olhei para o lado, recebi uma pancada na cabeça. – O que aconteceu com minha cabeça? Está doendo muito e ainda estou meio sonso. – Você levou quinze pontos e quase teve um traumatismo. Cara você é mesmo sortudo. Mais um pouco e teria morrido. Ele sorriu para o amigo e Lembrou quando falou sobre a sorte dele. Sacudiu com a cabeça afirmativamente e voltou a dormir. Siqueira teve alta dois dias depois e ficou sabendo que sua casa tinha também tinha sido assaltada. Talvez pelos mesmos homens que roubaram seu carro. Já que tinham levado sua carteira, chaves e endereço da sua casa. Tinham entrado na noite seguinte. A casa estava sozinha e seu pai estava vindo de São Paulo quando soube do acidente do filho. Por sugestão do amigo, ficou no apart-hotel do pai, para que ficasse em segurança até que a policia prendesse os ladrões e que pudesse repousar. Apesar da insistência de que tudo estava bem. – Siqueira, essas coisas não se brincam. Você precisa descansar. Levou pontos na cabeça. – Que nada! Como você diz, foi apenas uma falta de sorte. Você vai ver que nada mais vai me acontecer. Logo estarei bom e tudo volta ao normal. Vou comprar outro carro e reforçar a segurança da casa. – Sei! Mas não se brinca com isso, desse jeito. Respondeu o amigo. – Ta bom o que você sugere? Que eu vá a uma benzedeira? Ou arrume um amuleto qualquer? Que isso cara? – Vá brincando… Essas coisas são sérias. Às vezes são avisos que temos que aceitar. – Tá legal! Não vou brincar com você. Já que acredita nisso. Despediu-se do amigo e ligou a televisão para procurar um filme que prestasse. Olhou o relógio e perguntaram-se quando o pai chegaria. Vinha de São Paulo de carro, o pai detestava viajar de avião e sempre que podia usava o carro, só quando era realmente impossível ou que o tempo estava muito curto que ele o fazia. Eram nove e quinze da noite, quando passou por um noticiário e ouviu a noticia de um grave acidente na estrada, envolvendo vários veículos. Seu coração apertou e resolveu ligara para o pai. Fez várias vezes e sem sucesso, o celular acusava fora da área de alcance e ele sentiu o peito apertar. Ligou para o amigo e contou-lhe de sua aflição e esse procurou acalmá-lo, informando-o que o pai deveria estar realmente fora de alcance. De fato um acidente grave ocorrera, o carro do pai, fora chocado por trás por um carro que vinha em grande velocidade e esse ficara preso entre as ferragens. Não morrera, mas estava muito ruim em hospital em Resende. Sentou-se na cama e apoio a cabeça entre as mãos. Por um momento fechou os olhos e viu o pai a sua frente, iria ralhar é claro pelo fato de estar àquela hora da noite no dia do acidente no meio da rua. Pensou nas respostas que daria para o pai, de que era maior de idade, etcetera-e-tal. No fundo sabia que as broncas morais do pai e do amigo lhe minavam velhas crenças. No fundo tentava acreditar. Abriu a porta ao ouvi-la bater. Era Pedro que chegou e abraçou o amigo, confortando-o. Pela primeira vez que se lembrava, chorou. O amigo surpreso, o abraçou e confortou-o como se conforta um irmão. Pegou um copo e encheu de água servindo-o. – beba! Vai se sentir melhor. Não fique assim cara. Isso vai passar. – É Pedro, como você costuma dizer sempre. Acho que uma maré de azar me pegou cara. Isso comigo, e agora com meu Pai. – Tudo vai ficar bem não se preocupe. Disse o amigo sentando ao seu lado. Na sua cabeça Siqueira imaginava as cenas, seu pai no hospital, ele se convalescendo, o que mais lhe faltava acontecer? Onde estava a sua sorte afinal? – Que merda Pedro! Disse colérico. Escapei por pouco de uma concussão cerebral. E agora isso. Isso é que é sorte? Essas coisas não existem repito! Não existem. Tudo isso é besteira. Como posso ter uma sorte e depois me acontecer isso? – Você está nervoso cara. Vamos fazer o seguinte.. Disse abrindo a carteira e entregando-lhe um escapulário pequenino com um barbante. Fique com isso, sempre me deu sorte e você é como um irmão para mim. Você vai sentir-se melhor e verá que tudo vai dar certo. Agora eu tenho que ir, pois tenho algumas coisas para ver com minha noiva. Depois nos falamos. Deixou sobre a mesinha e foi-se. Siqueira olhou o pequeno amuleto, e sorriu. O amigo não desgrudava daquilo e naquele momento desfazia-se de sua maior superstição para ficar do seu lado. Pegou o pequenino amuleto e colocou-o no bolso e desceu o elevador. Um carro o esperava para levá-lo a Resende para visitar o pai. A viagem fora quieta, alguns amigos do seu pai lhe ligaram para saber as noticias e parentes. Encontrou o pai inconsciente, sob efeito de sedativos e foi procurar o médico que cuidara dele. Contaram-lhe sobre o estado do pai e que ele incrivelmente naquelas ultimas duas horas melhorara muito rápido. Siqueira sorriu e agradeceu o médico e seguiu para o quarto. Encontrou o pai acordado e conversaram sobre o acidente de ambos e sobre a alta e sua remoção para o hospital mais perto de casa. Três dias depois, Pedro fora a casa de Siqueira para visitá-lo e saber das noticias. Pensou em tudo o que ocorrera e nas palavras alegres do amigo, contando sobre a melhora impressionante do pai, contara também sobre o carro que fora roubado. O encontraram inteiro sem marcas e somente sem o rádio. Devem ter sido moleques. A Policia tinha pistas deles e conseguira identificar um deles e dentro em breve estariam presos. Estava contente pelo amigo que recuperara a confiança e auto-estima. Bateu a porta da casa e chamou o amigo, esse apareceu e o abraçou. – Entre cara. Venha! Quer tomar alguma coisa? Estou fazendo um churrasco para comemorar a volta do meu pai. – Não, só vim ver como está. E seu pai como vai? – Ele está bem. Está no jardim. Ainda se recupera, mas os médicos já vão liberar ele dentro de alguns dias. E você como está o preparativo para o casório? – Está ótimo. Vou levar Pamela para ver uma casa que estamos pensando em comprar quando casarmos. – Que legal, é uma pena não poder levá-los. Torço por vocês dois. Pedro ficava contente com o otimismo do amigo. E lhe perguntou sobre o amuleto que deixara com ele naquela noite antes de visitar o pai. Siqueira congelou. Os acontecimentos dos últimos dias tinham sido surpreendentes, a recuperação súbita do pai, o carro que já dera como perdido e que estava fora do seguro, sua recuperação, convencera que não era somente acaso. O amuleto que o amigo tinha-lhe emprestado tinha ou não algo a ver com aquilo. Não tinha essas crenças tão enraizadas em si, mas no fundo respeitava-as, apesar dos deboches com o amigo, esse não viajava para nenhum lugar sem o pequeno amuleto e sempre que ia a alguma viagem juntos. Seria somente acaso? E se nada daquilo não tivesse ligação nenhuma? E se não? E se estivesse errado, se o acidente e tudo o mais fora apenas um aviso? “- Vá cara! Pense em alguma coisa” Pensou… – Pedro… eu acho que perdi o amuleto que me emprestou. Não sei onde o deixei. Disse ele desviando o olhar do amigo e caminhando para a piscina. – Como assim perdeu Siqueira? Voce chegou a usá-lo? Eu tenho uma viagem e não viajo sem ele você sabe. Pode ser superstição cara, mas tenho ele a muito tempo mesmo. – Pedro! Pedro! Deixe disso cara. Como eu te falo, isso é apenas superstição sua. Nada acontece por causa de um pequeno objeto que você nem sabe o que tem dentro e de onde veio. Olhe para mim tudo isso acontecendo e tudo bem começou meio ruim, mas deu uma acertada, sem nada disso. – Tudo bem, cara, vamos fazer o seguinte,. Eu vou procurar entre minhas coisas e depois te aviso se o encontrar. – Certo amigo. Até mais e melhoras para você e seu pai. Vou me apressar, pois o tempo está péssimo e parece que vai cair uma chuva forte. Sentiu seu peito arder e uma sensação de arrependimento e culpa lhe tomou. Mentir assim para seu melhor amigo? Não ficaria feliz se algo o acontecera, mas e ele? Poderia conviver com isso? E se tudo não passasse de fantasia? Resolvera acreditar em patuás? Subiu ao quarto e procurou pelo pequeno objeto. Revirou o quarto todo e lembrou que deixara na camisa que viera da cidade. Pensou em ligar para o amigo e tentar convencê-lo a não fazer a viagem. Pegou-se no contrapé de sua agora superstição. Acreditava agora nisso tudo? E o amigo, esse o perdoaria quando soubesse que ele mentira? Lembrou que deixara com a roupa que iria para a lavanderia. Arrumou-se apressadamente e rumou-se para lá. Atravessou a ponte metálica e seguiu a rua principal. Ficou pensando no pequenino objeto. Teria ele tal poder realmente, ainda não se convencera de fato. Em verdade Pedro sempre o tivera por perto e quase tudo o que acontecera com ele, lá estava o amigo. No dia em que ganhara a viagem promocional de cruzeiro pela costa do Brasil, estava junto com o amigo. Assim como outros fatos que começou a fazerem sentido. Quando foi convidado pelo pai para ir a São Paulo fecharem o negócio da nova rede de hotéis, lá estava o amigo. Não gostava de viajar sozinho e convidara-o para um passeio, tendo esse lhe confidenciado que nunca ira aquela cidade. Deveria ser coincidência, pensou ele. Aqueles pequenos fatos foram mexendo com sua imaginação. O assalto que teve, quase sempre estava juntos. Dobrou a esquina e com o coração batendo agora mais forte, acelerou o carro. Eram dezoito horas e a lavanderia fecharia. Saltou do carro e correu em frente, chegou com as portas fechando. Informaram-lhe que não poderiam deixá-lo entrar. Ele perguntou sobre as camisas que pegaram e disseram que já estava pronta e que agora só poderia pegar na segunda feira, pois não abriam aos domingos. O telefone celular tocou, ele olhou o viu que era o amigo que lhe ligava, tinham três ligações, desligou o celular e ficou pensativo. Não saberia o que dizer a ele. Tentou argumentar com a atendente que já fechara a porta, sem sucesso. – Sinto muito senhor, disse a atendente fechando a porta de vidro da loja. Uma chuva muito forte começou a cair. Siqueira correu para o carro e ficou lá dentro aguardando passar para ir embora para casa. A rua começou a encher rapidamente e ele resolveu sair com o carro. Aquele local enchia muito rapidamente e não seria muito prudente ficar ali. Se já mandaram entregar o amuleto deve estar em casa pensou, em casa está comigo. Então está tudo bem. Não passava de um objeto. Tomou a estrada de volta. O vidro do carro embaçado com a chuva forte. A sua frente Siqueira viu outros carros parados sobre a ponte metálica e aguardou o transito olhando o rio que subia rapidamente. Olhou o céu de um cinza escuro e o horizonte de luzes bruxuleantes, que pareciam pequenos vaga-lumes deformados. Do outro lado da cidade na estrada saindo de Barra do Pirai, com destino a Vassouras, iam Pedro e Pamela, essa sorridente e apreensiva com toda aquela chuva. Iriam visitar a casa de seus sonhos. Esse pensativo com o amigo e consigo. Não gostava de viajar sem o pequenino amuleto. Recebera de sua mãe a muito tempo. Nunca se separara dele. Não era somente uma superstição boba, era um objeto de recordação que lembrava sua mãe já falecida, era o único de uma família humilde e trabalhadora. Ao longe viram a outra ponte que os atravessariam para o outro lado. O rio Paraíba do Sul estava muito cheio e os carros atravessavam um a um, a água estava quase se encostando à ponte e ele temeu prosseguir. – Deviam ter aberto as comportas! Disse ele olhando para a noiva e beijando-a amorosamente. Levaram dois dias para localizarem o carro que fora arrastado pelas águas. Nunca tivera uma chuva tão forte como aquela naquela época do ano, e não tiveram tempo de bloquear as pontes sobre o rio ou dispararem alertas por causa da barragem e da água que tiveram que soltar. Algumas casas ribeirinhas foram inundadas e algumas famílias perderam tudo o que tinham. Fora o maior desastre que Barra do Pirai já vira. Fora tudo muito rápido. Quando finalmente liberaram as estradas, as pessoas puderam voltar e o transito pode ser liberado. Abalado com as noticias, e com a cabeça entre as mãos e pensativo dizia. – Perdi um grande amigo! – Não fique assim! Acalme-se! Não tinha nada que pudesse fazer. Foi uma fatalidade o que aconteceu. – Não me conformo. Eu deveria estar lá com ele. Sempre estive! Abriu a porta traseira do carro e pegou uma caixa abrindo-a. Dentro dela embrulhado com papel manteiga e engomada, uma camisa social de homem. No fundo da caixa, um pequeno escapulário e um bilhete. “- Senhor Siqueira. Segue conteúdo do bolso de sua camisa.” Antes de viajar Pedro fora a Lavanderia onde trabalhava sua noiva. Pegara a camisa do amigo para entregá-lo quando retornasse da viagem. Pois não gostaria de deixá-lo sozinho, era seu grande amigo

De sol a sal… esquindô no entardecer.


Durmo na praia cujas areias, nos montes que me fazem açúcar, que a água leva rumo ao infinito, e me uno aos incontáveis grãos que me molda, nas formas inquietas que vão e voltam, na silueta que me torna duna e na praia alva que me torna lívido.

Garganta que faz grito, no pulso acelerado no compasso adrenalitico que me faz verão, no mesmo corpo que queima ao sol ao léu e me torna bronze, já que ouro é que dizem… desce pela goela abaixo que canta, espantando os males.

Anal das retilíneas que se julgam e subjugam, aos que estremecem na vontade alheia. Sou carioca, Paulista ou Mineiro, cujas raízes se perderam na mistureba que me faz Brasileiro ou estrangeiro, na mesma farofa.

Divino, nos incontáveis grãos e partículas que me torna átomo, de alma, cuja cor dizem alva, mas que na veia, pulsa um rubro vibrante, como os que traçam folhetins de sexta-feira, que anuncia esquindôs ou Shabat na esquina que me torna sal, sol e paz, e que não se acaba ao entardecer.

Assim sou, somos ou queremos, do mesmo jeito, no amanhecer de sal a sol, nos refestelar.

Além do sonho de infância. Pétalas.

Ela caminhava a minha frente, passos sem pressa por entre o caminho formado de pedras e gramas, seus braços abertos acariciavam as flores que ficavam dos dois lados do caminho, o vento levantava seus cabelos e seu perfume misturava-se aos demais de flores e da alegria, se essa tem algum perfume… Eu decerto saberia distinguir.
Fui precoce na descoberta do amor, um amor adolescente, ainda imaturo, e que me remeteria a muitos encontros e desencontros, sem definições e pouca ou muita responsabilidades e as vezes, sem nomes difíceis de dar, era somente amor de infância, se não o mais puro, o mais inconseqüente, o mais forte e o mais marcante, o primeiro sempre marca . Hoje experimentava a sensação novamente como um tributo da natureza, que me brindava com o seu mais valioso presente e também enigmático, o verdadeiro e maduro amor.
Por alguns instantes fiquei parado observando-a, minha mente fotografando-a, filmava cada quadro, que pareciam intermináveis, como flashes em slow-motion.
- Venha rápido! Disse ela, parando minha filmagem mental e despertando-me, me trazendo da infância sem compromissos, ao presente do saber e querer, do bem-me-quer. Corri e em seus braços continuamos o caminho, os pés roçando pedras brancas e lisas e às vezes na grama verde, que tapeteava o caminho que parecia infinito.
Nossos risos ecoavam nas arvores e na distante montanha e nossa alegria contagiava o redor. Sentamos na soleira de nossa cabana e ficamos em silencio, observando o sol que desaparecia na montanha a nossa frente, colorindo a tarde e trazendo o frescor de um novo anoitecer. Ali percebi que a vida é simples, e que não precisa de fórmulas indecifráveis, com nomes mirabolantes para se fazer presente, seu rosto elevado no horizonte era como uma pintura e que a adolescência ainda era amor, puro e inquebrável.
Acariciei seu rosto e puxei-a para mais perto e abracei-a com força, queria perpetuar o momento que vivíamos. Levantamos e entramos na cabana, estávamos no meio do quarto abraçados e assim ficamos por alguns instantes.
- “Tenho uma surpresa para você!” ela disse. ‘“Fique aqui e só venha quando eu chamar” Disse entrando no banheiro da cabana apressada. Eu não desobedeceria àquela ordem… Não dita com aquelas palavras.
- “Pode vir! – Ela disse. E lá estava numa banheira coberta de pétalas de rosas e velas acesas coloridas. Foi ali que percebi que a natureza ainda brincava comigo e que para ela o amor não tinha definição, não cabia ali palavras.

Tres Marias

Três Marias

As Marias da casa são Marias de uma vida inteira, três gerações de Marias.

Tem Maria Cecília, mãe de Maria Antonia cuja casa habitava e que dera a luz a Maria Cristina. Essa filha adolescente, na terceira geração das Marias, essa cujos impropérios, levava sempre corretivos, dando dores de cabeça as Marias Mãe e Avó, de coisas que a Avó não poderia nem sonhar, já que octogenária ficaria escandalizada e decerto diria – Essa menina é uma desonra! Ficava pensando com seus botões, onde errara na educação de Antonia, para ter nascido uma neta assim tão arredia e barulhenta. E rogava todos os dias para que a neta endireitasse.

Eis que um dia, acorda no meio da noite para tomar um copo de leite e resolve passar no quarto de Cristina, pobrezinha deve estar descoberta, e ao chegar percebe que na cama há dois pares de pés e com certeza a neta não era dona de todos eles. Dona Cecília, começa a gritar. – Maria Antonia! Corre cá. Acuda! Há um ladrão na cama de Cristina! Pega um rodo e se coloca de prontidão entre a cama e a porta do quarto e dana-se a bater na perna do estranho, que agora com os gritos e a canela batida, dá um pulo e fica de pé ao lado da cama. Outro grito de dona Cecília – Há! Ele ta pelado. Vagabundo, indecente e imoral. Ele coitado, ainda semi adormecido, puxa o cobertor da cama e enrola na cintura, com os olhos esbugalhados, começando a entender o que estava acontecendo, olhando dona Cecília com uma panela na mão e ele torcendo e rezando assustado para que não estivesse com água fervente. Era só o que faltava.

Desfeito a confusão, dona Antonia teve que dar calmantes a mãe após tentar explicar o que estava acontecendo, e é claro após uma bronca colossal em Cristina, por aquela loucura. – Vê se pode uma coisa dessas? Trazer um namorado para dentro de casa? Já fora longe demais essa menina. Dona Cecília ainda tonta, não conseguia conceber tal afronta e liberdade, em seus oitenta anos nunca vira uma cena como tal. No seu tempo, homem só dormia na casa quando casava e decentemente, pelado nunca. Achava aquilo tudo uma pouca vergonha. Ficou imaginando onde fora que errara na educação da filha?

Há! O pobre visitante, ou “ficante” como diria Maria Cristina, esse saiu correndo como um louco, apesar das desculpas e broncas de dona Antonia, e deve estar fazendo-o até agora e pensando, “Que loucas! Nem pintado de ouro quero ver essas malucas. Deixou para trás uma cueca, que só se deu conta quando parou, a tal que dona Cecília excomungou enquanto tacava fogo, tentando eximir o pecado que ali chegara e dizendo – Vixe cruzes! “Que afaste daqui esse tal”.

Pés descalços.

Chegou! Os pés apressados obedeciam a uma ordem involuntária a caminho da embarcação.

A brisa suave acaricia seus cabelos cor de ouro, que como lantejoulas balançam no murmúrio das ondas lá fora.

O olhar fixo no horizonte parecia querer puxá-lo, como a diminuir apressadamente a distancia. No peito cada vez mais acelerado, o coração se descompassa de vez, a cada metro tragado.

Quase correndo, seus pés flutuam no caminho para casa, suas mãos tocam a maçaneta gelada pelo vento frio, e seu corpo sente um calafrio, incondizente com o calor que o corpo exalta, como a brincar com seus sentidos.

Súbito, uma mão lhe envolve a cintura fina e descoberta, seus lábios são pressionados por uma boca quente e um perfume envolve seus sentidos. Sobre o carpete da sala deixa-se cair, não há mais força. Há um desalinho por toda parte, sem pudor, entrega-se, esquecendo o cansaço de um dia de trabalho e se entrega, entrelaçando o corpo nu.

Suave, agora seus pés descansam o caminho não mais importa, o destino está ali, descalço e desfalecido…

Pelas bandas de lá…

 

            Do outro lado do rio, morava ela, menina linda, que quase não via. Só nas missas de domingos em que me fizera devoto, após um dia meio que obrigado, fui a contragosto. Confesso que não era meu feitio, largar a caça dos passarinhos pelas matas ou uma pescaria no Rio Paraíba para rezar na igreja num domingo ensolarado e minhas atenções as meninas, restringia-se as da escola, e minhas primas, mas ainda não me despertava o interesse, afinal ainda menino, minhas atenções eram deveras outras. Mas numa dessas manhas, a conheci, com um laço de fita no cabelo ainda molhado, cheirando a alfazema, devia, ou rosas do campo onde morava, pelas bandas de lá. Ainda era um menino, que de longe queria ser homem, desatento a compromissos que via os outros ter. Os meus eram a escola, a capina do quintal, meio a meio conservado de cinco ou sete braças, que se faziam quando ia à cata das iscas para pescar, ou sob o chinelo de minha mãe.

                Descobri tal formosura, nessas idas a pescaria, ou caçando preás na beira do rio, perto do porto da estação, vi uma vez, dentro da canoa que levava as pessoas para o outro lado do rio. Nunca tinha reparado nas belezas existentes por lá, não tão de perto, ou não tão perto assim. Estava com uma dona, que devia ser sua mãe, toda prosa e brincando na água do rio, barrenta, após as chuvas de março, sem importar-se com nada, somente ali. Lá pertinho estava eu, sujo de barro até o tronco, pés descalços e sem camisa, com uma vara de lambari na mão e fieira com três acarás e um lambari, aos pés uma latinha de iscas puladeiras. Quando ela me olhou, senti que ela vira um menino sujinho, perdido no meio do mato, lançando ao rio algumas iscas e pegando lambari cachorro, achei que viraria o rosto, lindo e brilhante, olhos cor de mel refletido a luz do sol. O vento estava levando para o outro lado um perfume que imaginei ser maravilhoso, portanto não pude senti-lo, mas imaginei ter. Mas ela não virou o rosto. Sorriu e acenou, com mãos de fada e sorriso angelical, uma mistura inexplicável que me fisgou em cheio e em carregou com ela, demorei a responder o aceno, e vendo a canoa se afastando e a insistência do aceno levantou minha mão e acenei de volta, só assim ela virou-se de volta, com um sorriso no rosto.

                Desse dia em diante, percebi que alguma coisa em mim mudara. Outras vezes fui ao mesmo porto, ora para pescar lambaris que não dava mais ali ou somente para ficar esperando a menininha do outro lado do rio. Um dia tomei coragem e perguntei ao barqueiro se a conhecia, e ele me disse seu nome, Cininha. Era filha do dono da fazenda Alvorada, que ficava perto da Serra e que do alto da estrada que margeava o Rio Paraíba se via. Era uma fazenda grande, com uma criação de cavalos de raça, também tinham muitos bois brancos, que davam um contraste na paisagem verde do lado de lá do rio, tal qual uma pintura, que eu admirava do alto do morro, onde ficava, ora para empinar minhas pipas, fugir d’algum castigo imposto por minha mãe, ou para somente ficar ali, imaginando-me cavalgando aqueles cavalos, sonhando ser um vaqueiro, percorrendo a imensa pradaria levando os bois para o curral. Descobri que meus passos começaram a guiar-me onde pudesse encontrá-la, comecei até a freqüentar as aulas de catecismo, que minha mãe sempre achava que eu ia regularmente, com mais assiduidade do que outros meninos, e por esses tive vários apelidos por causa disso. Não sabiam eles o que se passava comigo, e nem eu mesmo saberia naqueles tempos, ainda não tinha essa maturidade.

                Encontramo-nos mais tarde, na festa da padroeira, onde encantadora, vestia-se como um anjo, para encarnar a ressurreição, e eu agora participando do grupo, vi-me cada vez mais encantado e maravilhado com sua beleza. È claro que minhas andanças pelas matas, o caçar de passarinhos e preás diminuíram, minha visita ao morrinho de onde se via a casa dela, foram mais freqüentes. Elevava meu pensamento e apertava a vista tentando encontrá-la por entre os pequeninos vultos que se via. Minha mãe percebeu em seu catedrático coração experiente que o pequenino menino que eu sempre fora estava mudando, minhas ações tornaram-se quase tão firmes quanto o propósito que no fundo se aflorava.

Eu ainda me recordo do nosso primeiro encontro, do aceno de suas mais pequeninas, e na canoa afastando-se de um porto inquieto, das águas barrentas e rápidas, do seu cabelo embalado com o vento e um perfume que ainda imagino em cada sopro de vento.

Estava me tornando homem e ficando apaixonado e ainda não sabia disso.

Um conto em Rio das Ostras

Depois de mergulhar naquele mar de Rio das Ostras e passear naquelas maravilhosas praias, pude sentir que ali iniciaria uma  paixão maravilhosa, quer seja pelo local paradisíaco, e pelos momentos que decerto viveria, se assim podia classificar, Rosa, era seu nome, se propusera a ir comigo. Diria ela alguns dias antes de viajarmos, precisávamos nos reconhecer. Ela também queria aproveitar o verão maravilhoso, e recém chegada ao Rio de Janeiro, não via a oportunidade de aproveitar o sol e o final de semana e a oportunidade de unir o útil ao agradável. Rosa era do tipo que não dava para se esquecer, uma poesia de mulher, mas ansiosa por um final de semana aconchegante, assim como eu. É claro que ela não era meu primeiro amor, e na verdade não era muito isso o que pensava no momento, mas também é claro a minha condição de homem, me deixava excitado com o pensamento de estar sozinho com aquele pedaço de mulher. Fizemos uma viagem de três horas, colocamos nossos assuntos em dias, também havia anos que não nos víamos, éramos quase primos, nascidos na mesma cidadezinha de Volta Redonda, cedo tínhamos ido para o Rio, atrás de emprego e embrenhados na cidade grande, como definiriam nossos pais, que também quase primos, se conheciam e se davam desde pequenos, como nós e típico de cidade de interior. Eu após servir nas Forças Armadas, que por sinal, voltei a reencontrar a Rosa, que era Enfermeira do Hospital Militar em Resende, quase namoramos, mas a nossa amizade de infância, interferiu e resolvemos apenas sair algumas vezes. E a vida assim quis e cada um seguiu seu rumo. Agora Rosa era Consultora de uma empresa de Telefonia e eu trabalhando numa agencia de informações Privada Bancária. E através de muitos e-mail e alguns almoços juntos, resolvemos marcar uma viagem para conversarmos e quem sabe um programa junto. Nossa chegada ao hotel foi embaixo de uma chuva torrencial, totalmente adversa ao tempo do Rio de Janeiro, que batia perto de trinta e nove graus, e não fomos é claro preparados para um temporal daqueles. Fomos para nossos quartos e troquei de roupa, colocando um roupão do hotel e arrumando minha pequena mochila, afinal passaríamos apenas quatro dias, naquele paraíso. Olhando para a janela, a paisagem por trás da chuva que descia parecia colocar um véu branco no horizonte, as lonas dos quiosques, brancos e futuristas, se misturavam, a imagem parecia uma pintura de Dali. Mas era a paisagem mais maravilhosa que já vira de uma sacada de hotel. Uma vez somente pude admirar uma paisagem igual, fora em uma viagem a Bahia, em Itaparica e a sensação fora a mesma, excetuando que naquela ocasião eu estava acompanhado, seco e tomando uma boa caipirinha com uma namorada na época. O telefone do quarto me tirou do transe psicodélico e retomei a realidade. Fomos para o bar do hotel e ficamos conversando durante horas e nem vimos à chuva parar, falamos sobre nossa infância e do nosso primeiro beijo, quando eu tinha meus precoces doze anos, e a maravilha que foi. Se toda criança daquela época sonhava em dar um beijo como eu, eu não sabia, mas beijar a “prima” que era a mais concorrida nas brincadeiras de rua, era um sonho que todo garoto da rua tinha, e eu era o mais sortudo, pois morávamos no mesmo quintal, a minha casa ao lado da dela. Numa tarde de inverno, estávamos todos na varanda da minha casa, quando ela me pediu que lhe buscasse um copo de água, ela sempre fora uma menina que aparentava mais idade, e de seus treze anos, parecia que tinha quinze, tanto que seus pais, mais o pai dela que era conhecido como O Sr. Fera, pois cansava de botar os rapazes para correr, pois muitos não acreditando na sua idade, se acotovelavam para namorá-la, e sempre tinha um engraçadinho que vinha até o portão procurar por ela e é não só encontrava o pai dela bravo, como desapontamento. E é claro, não podia deixar de sonhar com o mesmo destino dos outros garotos que já tinham a oportunidade de beija-a, quer fosse numa infantil brincadeira, mas que povoava a mente maliciosamente infantil de menino. Entrei na casa e fique vagando com meus pensamentos florindo utopicamente, quando dei por mim ela já estava ao meu lado, demorara mais que o esperado e foi quando vi que estava mesmo “apaixonado”, seu vestido floral, dava a impressão que estava mais cheio que realmente era e seu rosto angelical, lembrava as bonecas de porcelana que minha mãe pintava para vender na feira de artesanato da paróquia, e seu perfume era como o perfume da flor das macieiras. Ela apanhou o copo de minha mão e me beijou no rosto, um beijo demorado como querendo retribuir algo, ou como a zombar de mim, sabendo a minha admiração e fascínio por ela. Ela apesar da idade não tinha namorado, o que para mim era uma esperança, mesmo que muito remota, e aquele acontecimento, mudaria a minha infância e como olharia para ela desde então. E era dessa forma que estava a vendo, com um vestido acetinado, delineando seu corpo, esculpido e talhado com muitas caminhadas pela cidade, era uma visão que me remetia a alguns anos atrás. Já era tarde e resolvemos retornar ao hotel e pedir algo para comer ali mesmo, fomos para seu quarto, que como o meu, dava de frente para a praia. A paisagem lá fora, não estava mais psicodélica, abrimos uma garrafa de vinho e saboreamos uma deliciosa pizza sentada na mesa da pequena varanda, tendo o mar e o horizonte como paisagem. Nos aproximamos e nos beijamos, quer seja pela nossa condição solitária, ou pelo efeito inebriante do vinho, nos tomamos como troféus, e nos entregamos como jovens namorados, explorando cada centímetro de nossas mentes angustiadas com outrem. Ela tinha mudado muito, e seu corpo endeusado me era ofertado, e ficamos no nosso cerimonial de carícias, ante a janela aberta e o iminente aparecimento de algum voyeur indiscreto. A cadeira ficara pequena para nos dois e fomos para sua cama onde o tempo não importava mais, e o beijo doce das lembranças deram vezes as deliciosas e balsâmicas. Olhando-a deitada sobre a cama desarrumada, sob a luz do luar, pude perceber o verdadeiro fascínio que os meninos tinham por ela, e agora os homens que a cercavam, quer no trabalho ou na rua, e pude dar um sorriso maroto, enfim vencera os garotos de minha época, e ali sob o lençol não apenas maravilhado, mas também sorrindo por dentro, pois algo mais acontecera, e com certeza a manha de sol que estava por vir seria mais maravilhosa ainda. Ao longe uma enorme lua invadia a o quarto, brindando a noite e o momento, dando o toque prateado aquela noite de ouro, que as estrelas tinham como testemunho de uma verdadeira viagem no tempo.
Rosa, fez uns gestos inconscientes e  quase sussurrando, pediu-me um copo de água, e ao levantar-me, senti-me como voltando no tempo, encaminhe-me em direção ao frigobar e peguei a água mineral, fechei os olhos e quase pude sentir o perfume, virei-me lentamente e pensei em encontrar aquela menina em pé a minha frente, mas ela estava ali, ainda deitada sobre a cama, aguardando. Beijei-a levemente em seu rosto de porcelana, e adormeci ao seu lado.

Um amor no Bar do Canal

Quando nos conhecemos ela disse que gostara de minha companhia, sem compromissos, somente ocasional. Ocasional? Pensei eu, o que seria ocasional? Mas como a vida nos prega peças, decidi deixar de lado as formalidades sociais, dei-lhe o braço e no Café do Canal, tomamos um vinho e conheci seu quarto na pousada. 

Havia estado outras vezes em Paraty, e novamente procurando a história perfeita, para o romance que estava  escrevendo, e naquele dia, não tinha sido diferente, até encontrá-la, ali meio sem rumo, numa Paraty deserta, por entre as pedras do caminho da Praça da Matriz, onde ensaiavam um teatro para a festa do Divino, que seria na semana seguinte. A imagem ficou marcada em minha mente, ela sob as bandeiras e casas coloridas, preparadas para a festa, e eu ali, meio bobo, meio estático ante aquela visão Divina, perdida numa Paraty, mergulhada como o próprio nome em Tupi, um Mar Branco de belezas. 

Uma criança passou correndo em minha frente e despertei do transe que ficara, não passara alguns segundos e lá se ia ela rumo a não sei onde, só e com seu colorido, sua calça jeans e uma jaqueta sobre os ombros que sustentavam uma mochila igualmente colorida. Eram nove horas da manha e eu acabara de tomar meu café e caminhava meio sem rumo, em direção ao porto, para acompanhar o vai e vem dos barcos e turistas. Não resisti e aproximei-me dela, com meus olhos recusando-se se desviar de seu rosto e perguntei-lhe se queria ajuda, ela queria informação sobre uma pousada que indicaram para ela. Era a primeira vez em Paraty, era professora e estava preparando um roteiro cultural sobre a cidade para uma próxima visita, dessa vez com alguns alunos do curso que ministrava.”… uma visita de alunos, adolescentes”, falou outra coisa, mas minha mente ainda vagueava e só consegui me concentrar no caminho que indiquei para ela. Perguntei se viera só e ela respondeu que sim. “Não me reconhecia mais, perguntei-lhe se precisava de um guia”, disse sorrindo. “È claro que estava preparado para um sonoro não e já preparava para dar meia volta e continuar minha trajetória rumo ao porto, apesar do céu um pouco nublado.” – Porque não..?” Disse ela, eu engoli meus  pensamentos e combinamos nos encontrar, após ela se instalar na pousada. Escrevi num papel meu telefone. Ela dobrou o papel sem reparar no que escrevi e me olhou firme esticando sua mão. Foi nossa combinação. 

Dei continuidade a minha caminhada, agora meio desconcentrado, o tempo parecia parado, estacionei-me no canhão velho frente à igreja e fiquei parado olhando os barcos e gaivotas, imaginando quando a veria novamente. Só então lembrei que não pegara o telefone dela. 

Retornei meio frustrado, o barco que poderia me levar já tinha partido, e teria que esperar até as treze horas para outra oportunidade, caminhei de volta pelo passeio do porto e sentei-me na grama, em frente à igreja antiga e fiquei tentando produzir algo, mas na minha mente não vinha outra coisa senão a imagem dela, desistiu de escrever alguma coisa e segui caminhando pela rua, retornei a Praça da Matriz, para dar uma olhada nos objetos de artesanatos e na banca de cordel, que estava sendo exposto no local, o tempo passou depressa.  

A tarde chegou rápido, coroando de dourado as ruas, agora com mais pessoas caminhando, os preparativos para a festa estavam em andamento e não podia perder mais tempo, afinal, a cidade não dorme e cada instantes mais turistas, mais rostos desconhecidos numa cidade conhecida em todo lugar. Já rabiscara algumas notas em meu bloco, que passaria para o meu laptop quando retornasse a pousada, estava começando a me concentrar novamente no meu objetivo real e observava as luzes se acendendo, iluminando as paredes coloridas das casas, e as barraquinhas sendo abertas, preparando-se para mais uma noite em Paraty. 

O telefone celular tocou, e atendi a uma voz feminina e açucarada, “Era ela pensei, só pode ser ela”, quase em voz alta, o numero eu não identificara, como era celular e do Rio de Janeiro. Marcamos no Café do Canal na Avenida Otaviano Gama, tive que fazer quase um mapa para ela, mas no final ela se encontrou, seguindo o passeio beirando o canal. Estava mais ansioso, afinal eu estava pertinho do Caborê e o inicio da noite um tanto fria, pedia um vinho para coroá-la definitivamente, como noite e como especial, que já dava ares de ser. 

Ela chegara primeiro que eu, apesar do meu passo apressado, “Estava ansioso, como adolescente.”, a primeira imagem dela ainda presa refletida na minha mente. Lá estava ela, de pé em frente ao balcão do bar, que ficava de frente para a rua, de longe podia sentir o magnetismo de sua presença, meu coração bateu forte e minha mão suou. Respirei fundo, é realmente ela me impressionara.  Ela acenou quando me viu, e trocamos um aperto de mão e um beijo de cumprimento no rosto. “Conseguiu realizar seu roteiro?” perguntei para iniciar a conversa, encaminhei para o centro do bar, que é um misto de café e pizzaria, e convidei-a para sentar. Apresentamos-nos formalmente. E pude perceber que a primeira impressão que eu tivera era pequena em relação a que estava tendo agora. Conversamos por horas, ela me contou um pouco sobre ela, seu trabalho com a escola, e sua obra social e sobre a idéia de elaborar o passeio cultural. Falei um pouco sobre mim e sobre meu trabalho, sobre os livros e contei a ela sobre a impressão que ela me causara, quase fazendo um desastre cultural, brinquei, tentando me soltar um pouco. 

Pedimos vinho e tomamos com um pão italiano, especialidade da casa, que ela imediatamente adorou, ainda me pergunto quem não gostaria, deviam patentear aquela iguaria. E pedi a ela que incluísse em seu roteiro, aquele lugar, que certamente adorariam, e ficamos ali curtindo uma musica maravilhosa, sendo dedilhada no violão. Não vimos o tempo passar e já estávamos na terceira garrafa de vinho. Caminhamos alguns minutos mais e paramos próxima a pousada onde ela estava e ficamos na portaria conversando, as luzes da rua refletidas nas palmeiras do canal, davam um ar romântico e me senti envolvido. O cheiro dela, era indescritível, a proximidade nos colocou frente a frente novamente, como se o instante nos testasse, e os dois parecendo fortes. “O vinho me traiu”, cheguei mais próximo e lhe dei um beijo no rosto, bem próximo a boca, como resposta ela segurou minha Mao e nos beijamos ali mesmo.

Subimos para seu quarto e ficamos nos beijando e nos tocando, como dois amantes, exploradores, sentidos e respeitosos, um não querendo atravessar o limite do outro. “Não consigo parar de pensar em você. Quero continuar o que ainda não começamos”, ela disse me olhando fundo. Eu sorri. Sempre gostei de paradoxos. E tiramos as roupas e transamos ali mesmo, de pé no quarto, sobre a mesa, na sacada, guardando a cama para mais tarde, pois sabíamos que seria o último lugar que ficaríamos, e provavelmente bem quietos, o vinho tinha essas características, e tanto eu quanto ela, gostaria de saborear até o ultimo instante, até a última taça. 

Deixei-a adormecida na cama e desci silenciosamente, e encaminhei para minha pousada. Não quisera ficar lá, apesar de sua insistência, afinal, ainda teríamos outra oportunidade, e eu não queria estragar aquilo.
Acordei com o som do telefone celular, estridente, a voz dela do outro lado, me dava bom dia, “estou indo embora”, ela dissera tinha ocorrido um problema na escola em que lecionava e teve que correr, já estava na rodoviária de Paraty, ia pegar um Van para o Rio de Janeiro. “Liguei para me despedir e dizer que a noite fora maravilhosa” dissera.

Eu ainda sonolento, sentei-me na cama e olhei as horas, eram oito horas da manha, muito cedo para despedidas, muito tarde para uma caminhada pensei. Eu gostara dela, seu jeito livre de olhar o mundo, mostrando uma maturidade além do que aparentava, tinha ela trinta e cinco anos, cinco a menos que eu. Tinha um jeito pouco apressado de olhar o mundo. Os cabelos longos e ruivos “Que um dia foi loiro” ela diria, os olhos por trás dos óculos, e a calma, principalmente a calma era o que me fascinou . Uma calma típica dos que sabem o que querem e  não têm medo disso, dos que sabem que nem sempre foi assim. Era aquela calma  que eu procurava, mas eu era muito apressado, queria resultados rápidos e talvez seria esse o ponto que devesse trabalhar melhor.

Hoje é domingo,  no Largo da Matriz, turistas e moradores se misturam, alguns em busca de artesanatos, boas fotos, outros um bom local para mergulhar, e talvez alguns poucos, buscavam a paz e tranqüilidade para amar. E no meio disso tudo estava eu,  vivendo um pedaço daquilo, como se a história nunca tivesse sido minha. Faz dois dias que ela foi embora e ainda sinto uma saudade alucinada de nós. Uma bandeira desprende-se do barbante e olho por detrás da lona que certa a praça, tentando encontrar, alguém que sei que não estará lá 

Retorno para o meu quarto para juntar minhas coisas e preparar para retornar. No espelho do meu quarto, vejo refletido um rosto sorridente, sobre a cama, meu laptop cintilava na página do Word, o romance, enfim terminara, com uma ajuda ocasional, sem compromisso como ela diria. Sentado em frente à janela, aguardava o taxi que me levaria à rodoviária, de volta para a realidade, ou irrealidade? Afinal, vivera momentos maravilhosos naquela Parati, e aguardava ansioso o retorno, para encontrá-la, no tão sonhado passeio cultural que viria um dia de um roteiro que estava sendo montado.

 

 

Por: Joseli Alves

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