Arquivos Mensais:outubro 2007
Um amor no Bar do Canal
Quando nos conhecemos ela disse que gostara de minha companhia, sem compromissos, somente ocasional. Ocasional? Pensei eu, o que seria ocasional? Mas como a vida nos prega peças, decidi deixar de lado as formalidades sociais, dei-lhe o braço e no Café do Canal, tomamos um vinho e conheci seu quarto na pousada.
Havia estado outras vezes em Paraty, e novamente procurando a história perfeita, para o romance que estava escrevendo, e naquele dia, não tinha sido diferente, até encontrá-la, ali meio sem rumo, numa Paraty deserta, por entre as pedras do caminho da Praça da Matriz, onde ensaiavam um teatro para a festa do Divino, que seria na semana seguinte. A imagem ficou marcada em minha mente, ela sob as bandeiras e casas coloridas, preparadas para a festa, e eu ali, meio bobo, meio estático ante aquela visão Divina, perdida numa Paraty, mergulhada como o próprio nome em Tupi, um Mar Branco de belezas.
Uma criança passou correndo em minha frente e despertei do transe que ficara, não passara alguns segundos e lá se ia ela rumo a não sei onde, só e com seu colorido, sua calça jeans e uma jaqueta sobre os ombros que sustentavam uma mochila igualmente colorida. Eram nove horas da manha e eu acabara de tomar meu café e caminhava meio sem rumo, em direção ao porto, para acompanhar o vai e vem dos barcos e turistas. Não resisti e aproximei-me dela, com meus olhos recusando-se se desviar de seu rosto e perguntei-lhe se queria ajuda, ela queria informação sobre uma pousada que indicaram para ela. Era a primeira vez em Paraty, era professora e estava preparando um roteiro cultural sobre a cidade para uma próxima visita, dessa vez com alguns alunos do curso que ministrava.”… uma visita de alunos, adolescentes”, falou outra coisa, mas minha mente ainda vagueava e só consegui me concentrar no caminho que indiquei para ela. Perguntei se viera só e ela respondeu que sim. “Não me reconhecia mais, perguntei-lhe se precisava de um guia”, disse sorrindo. “È claro que estava preparado para um sonoro não e já preparava para dar meia volta e continuar minha trajetória rumo ao porto, apesar do céu um pouco nublado.” – Porque não..?” Disse ela, eu engoli meus pensamentos e combinamos nos encontrar, após ela se instalar na pousada. Escrevi num papel meu telefone. Ela dobrou o papel sem reparar no que escrevi e me olhou firme esticando sua mão. Foi nossa combinação.
Dei continuidade a minha caminhada, agora meio desconcentrado, o tempo parecia parado, estacionei-me no canhão velho frente à igreja e fiquei parado olhando os barcos e gaivotas, imaginando quando a veria novamente. Só então lembrei que não pegara o telefone dela.
Retornei meio frustrado, o barco que poderia me levar já tinha partido, e teria que esperar até as treze horas para outra oportunidade, caminhei de volta pelo passeio do porto e sentei-me na grama, em frente à igreja antiga e fiquei tentando produzir algo, mas na minha mente não vinha outra coisa senão a imagem dela, desistiu de escrever alguma coisa e segui caminhando pela rua, retornei a Praça da Matriz, para dar uma olhada nos objetos de artesanatos e na banca de cordel, que estava sendo exposto no local, o tempo passou depressa.
A tarde chegou rápido, coroando de dourado as ruas, agora com mais pessoas caminhando, os preparativos para a festa estavam em andamento e não podia perder mais tempo, afinal, a cidade não dorme e cada instantes mais turistas, mais rostos desconhecidos numa cidade conhecida em todo lugar. Já rabiscara algumas notas em meu bloco, que passaria para o meu laptop quando retornasse a pousada, estava começando a me concentrar novamente no meu objetivo real e observava as luzes se acendendo, iluminando as paredes coloridas das casas, e as barraquinhas sendo abertas, preparando-se para mais uma noite em Paraty.
O telefone celular tocou, e atendi a uma voz feminina e açucarada, “Era ela pensei, só pode ser ela”, quase em voz alta, o numero eu não identificara, como era celular e do Rio de Janeiro. Marcamos no Café do Canal na Avenida Otaviano Gama, tive que fazer quase um mapa para ela, mas no final ela se encontrou, seguindo o passeio beirando o canal. Estava mais ansioso, afinal eu estava pertinho do Caborê e o inicio da noite um tanto fria, pedia um vinho para coroá-la definitivamente, como noite e como especial, que já dava ares de ser.
Ela chegara primeiro que eu, apesar do meu passo apressado, “Estava ansioso, como adolescente.”, a primeira imagem dela ainda presa refletida na minha mente. Lá estava ela, de pé em frente ao balcão do bar, que ficava de frente para a rua, de longe podia sentir o magnetismo de sua presença, meu coração bateu forte e minha mão suou. Respirei fundo, é realmente ela me impressionara. Ela acenou quando me viu, e trocamos um aperto de mão e um beijo de cumprimento no rosto. “Conseguiu realizar seu roteiro?” perguntei para iniciar a conversa, encaminhei para o centro do bar, que é um misto de café e pizzaria, e convidei-a para sentar. Apresentamos-nos formalmente. E pude perceber que a primeira impressão que eu tivera era pequena em relação a que estava tendo agora. Conversamos por horas, ela me contou um pouco sobre ela, seu trabalho com a escola, e sua obra social e sobre a idéia de elaborar o passeio cultural. Falei um pouco sobre mim e sobre meu trabalho, sobre os livros e contei a ela sobre a impressão que ela me causara, quase fazendo um desastre cultural, brinquei, tentando me soltar um pouco.
Pedimos vinho e tomamos com um pão italiano, especialidade da casa, que ela imediatamente adorou, ainda me pergunto quem não gostaria, deviam patentear aquela iguaria. E pedi a ela que incluísse em seu roteiro, aquele lugar, que certamente adorariam, e ficamos ali curtindo uma musica maravilhosa, sendo dedilhada no violão. Não vimos o tempo passar e já estávamos na terceira garrafa de vinho. Caminhamos alguns minutos mais e paramos próxima a pousada onde ela estava e ficamos na portaria conversando, as luzes da rua refletidas nas palmeiras do canal, davam um ar romântico e me senti envolvido. O cheiro dela, era indescritível, a proximidade nos colocou frente a frente novamente, como se o instante nos testasse, e os dois parecendo fortes. “O vinho me traiu”, cheguei mais próximo e lhe dei um beijo no rosto, bem próximo a boca, como resposta ela segurou minha Mao e nos beijamos ali mesmo.
Subimos para seu quarto e ficamos nos beijando e nos tocando, como dois amantes, exploradores, sentidos e respeitosos, um não querendo atravessar o limite do outro. “Não consigo parar de pensar em você. Quero continuar o que ainda não começamos”, ela disse me olhando fundo. Eu sorri. Sempre gostei de paradoxos. E tiramos as roupas e transamos ali mesmo, de pé no quarto, sobre a mesa, na sacada, guardando a cama para mais tarde, pois sabíamos que seria o último lugar que ficaríamos, e provavelmente bem quietos, o vinho tinha essas características, e tanto eu quanto ela, gostaria de saborear até o ultimo instante, até a última taça.
Deixei-a adormecida na cama e desci silenciosamente, e encaminhei para minha pousada. Não quisera ficar lá, apesar de sua insistência, afinal, ainda teríamos outra oportunidade, e eu não queria estragar aquilo.
Acordei com o som do telefone celular, estridente, a voz dela do outro lado, me dava bom dia, “estou indo embora”, ela dissera tinha ocorrido um problema na escola em que lecionava e teve que correr, já estava na rodoviária de Paraty, ia pegar um Van para o Rio de Janeiro. “Liguei para me despedir e dizer que a noite fora maravilhosa” dissera.
Eu ainda sonolento, sentei-me na cama e olhei as horas, eram oito horas da manha, muito cedo para despedidas, muito tarde para uma caminhada pensei. Eu gostara dela, seu jeito livre de olhar o mundo, mostrando uma maturidade além do que aparentava, tinha ela trinta e cinco anos, cinco a menos que eu. Tinha um jeito pouco apressado de olhar o mundo. Os cabelos longos e ruivos “Que um dia foi loiro” ela diria, os olhos por trás dos óculos, e a calma, principalmente a calma era o que me fascinou . Uma calma típica dos que sabem o que querem e não têm medo disso, dos que sabem que nem sempre foi assim. Era aquela calma que eu procurava, mas eu era muito apressado, queria resultados rápidos e talvez seria esse o ponto que devesse trabalhar melhor.
Hoje é domingo, no Largo da Matriz, turistas e moradores se misturam, alguns em busca de artesanatos, boas fotos, outros um bom local para mergulhar, e talvez alguns poucos, buscavam a paz e tranqüilidade para amar. E no meio disso tudo estava eu, vivendo um pedaço daquilo, como se a história nunca tivesse sido minha. Faz dois dias que ela foi embora e ainda sinto uma saudade alucinada de nós. Uma bandeira desprende-se do barbante e olho por detrás da lona que certa a praça, tentando encontrar, alguém que sei que não estará lá
Retorno para o meu quarto para juntar minhas coisas e preparar para retornar. No espelho do meu quarto, vejo refletido um rosto sorridente, sobre a cama, meu laptop cintilava na página do Word, o romance, enfim terminara, com uma ajuda ocasional, sem compromisso como ela diria. Sentado em frente à janela, aguardava o taxi que me levaria à rodoviária, de volta para a realidade, ou irrealidade? Afinal, vivera momentos maravilhosos naquela Parati, e aguardava ansioso o retorno, para encontrá-la, no tão sonhado passeio cultural que viria um dia de um roteiro que estava sendo montado.
Por: Joseli Alves
Odes de um Jardineiro
No relento a imaginar, como será seu florescer, entre tantas a mais bela e me coube o destino. Caule esguio, onde guio minhas mãos, atendo-me a sua fragilidade de flor, que leve e fina se transcende a mais pura poesia.
Alegro-me ao ver nesse jardim, entre tantas rosas que há, mas seus traços e perfume a destacam.
Perfeição cantada, perfume em essências mil, emoldurada e eternizada, sempre ti. Não me cabe tal felicidade, em meu peito jardineiro, não me ache inquieto, sou apenas um mortal simplório, tentando descobrir uma razão, que já aceito ser impossível no meu peito de poeta amador, tentar achar o motivo de querer estar tão perto, mesmo sabendo ser impossível.
Rosas serás e tal qual, caberá a mim sua visão ao florescer, seu perfume na aurora e suas lembranças na noite solitária de uma primavera colorida.
Por: Joseli Alves
